O que a igreja espera da educação teológica

O QUE A IGREJA ESPERA DA EDUCAÇÃO TEOLÓGICA

Pr. Paulo Costa

Introdução

Como elemento introdutório, gostaria de destacar que a tarefa que engloba esse tópico não tem se demonstrado das mais árduas na Conferência, quando comparada aos tópicos destacados por outros palestrantes, mas, falar sobre o que a Igreja espera da Educação Teológica poderia se apresentar por demais simplista se coubesse simplesmente ao palestrante trazer uma extensa lista de tudo que deveria existir ou não nos seminaristas ao retornar das escolas teológicas para o dia-a-dia da igreja.

Se olharmos com mais ênfase ao que tem sido proposto, é necessário não apenas ao palestrante como a todo leitor pensar a questão não somente em nosso contexto contemporâneo, mas por si só, convém antes de chegarmos ao âmago da proposta da qual ocuparei me aqui, fazer uma reflexão na relação Educação Teológica–Igreja.

Não é minha intenção acreditar ou fazer o leitor acreditar que seria possível pontuar nessa palestra, a questão de forma que poderíamos encerrá-la, mas dentro da limitação não somente de espaço, mas também humana, apontarei algumas alternativas que nos permitam continuarmos a abrir um diálogo nesse campo e diminuir as diferenças existentes nessa relação, acentuando a unidade existente entre ambas, que de fato, existe.

Se por um lado, a igreja pergunta sobre a relevância e a necessidade das escolas teológicas, por outro lado, as escolas teológicas avaliam as igrejas por sua falta de maturidade bíblica e teológica. Na verdade, ambas possuem uma interdependência nessa relação que, para abrir-se em um diálogo, deve existir respeito, amor e compromisso. São irmãs gêmeas que, mesmo que insistam em se separar, nasceram para viver juntas. Uma precisa da outra.

Um olhar histórico

Seria inocência de nossa parte se pensássemos que a reflexão sobre a educação teológica e a igreja é algo inerente apenas ao nosso tempo.

Sabemos que, com o decorrer dos tempos, houve diversas alterações no âmbito do ensino teológico, trazendo avanços notáveis, porém, apresentando alguns vieses causando distorções e um distanciamento entre as escolas teológicas e a igreja.

Considerando assim, poderíamos deitar um olhar crítico para as escolas teológicas e culpá-las por não terem percebido as mudanças que estavam adentrando suas portas, advindo das novas mentalidades seculares e as mudanças de um mundo globalizado.

É preciso que haja um grande e permanente diálogo entre a igreja e as instituições teológicas.

Fundamentação

Por que a igreja precisa das escolas teológicas? Essa pergunta insiste em perdurar, feita especialmente pelos pastores e líderes eclesiásticos.

Logicamente que quando a igreja envia um cristão para um seminário ela não espera receber o mesmo cristão, pois compreende que esse será um período de aprendizado para ele e todo o conhecimento trará mudanças em suas concepções. Mas a igreja não tem como abrir mão de algumas questões que espera se manter intactas nesse obreiro, ou seja, que a ortodoxia seja ainda um padrão na mente desse obreiro, quando a escola teológica o devolver após a conclusão de seu treinamento.

Acontece que a experiência de muitos vocacionados que foram às escolas teológicas, revela que vários deles se perderam ao longo da jornada. Alguns alegam que entraram crentes e depois saíram não crendo em partes das Sagradas Escrituras. Entraram com ardor evangelístico e saíram sem amor pelos perdidos. Tinham uma espiritualidade fervorosa e se transformaram em críticos de tudo e de todos. Essas são algumas causas que foram gerando o descrédito da igreja para com algumas escolas de Teologia. Ao voltar para a igreja esses estudantes sabem pregar bem, ministrar bons estudos bíblicos, mas sem a experiência prática ministerial, pois revelam desconhecimento das relações interpessoais, não sabem lidar com as tradições e os tradicionalismos denominacionais e locais.

Alguns resultados derivados disso são igrejas divididas, rachas e tempo consumido com questões não essenciais à vida da igreja. Quando se busca então um culpado o primeiro nome que surge na lista é, logicamente as escolas teológicas, dizem muitos críticos.

Preparação global e não local A igreja deseja que seu candidato tenha uma formação para ela mesma – local. Mas esse candidato entrará em contato com muitas outras teorias, conceitos, valores, teologias que estão para além dessa comunidade local. Resultado: surge então uma séria crítica às escolas teológicas de fazerem um estrago que vai além das concepções ortodoxas que deve nortear toda a escola compromissada com a sã doutrina.

Esses são alguns sinais que levam algumas igrejas e líderes eclesiásticos questionarem a razão de existir das escolas teológicas. É claro que existem muitos outros sinais que a brevidade desse espaço não nos permite tratar, entretanto, uma verdade se impõe: as igrejas precisam das escolas teológicas e vice-versa.

O crescimento da superficialidade em nosso contexto brasileiro, podemos observar que muitos pastores e líderes, estão iludidos pelo crescimento numérico da igreja. Essa mentalidade tem levado cada vez mais ao pragmatismo, imediatismo, voltados para resultados, não se importando com os meios para conseguir realizar seus projetos e sonhos.

Como resultado, temos uma igreja imatura, analfabeta funcional de Bíblia, com ênfase na emoção, cheia de gente vazia. E isso tem sido motivo pelos quais as igrejas tem sido alvo de críticas de algumas escolas teológicas, pois observam a falta de visão e de crescimento teológico desses pastores.

Uma reflexão

Em alguns contextos eclesiásticos, tem sido observado que há uma expectativa que os candidatos enviados não sofram muitas mudanças, o que acaba por se tornar um ledo engano. O resultado é que voltam diferentes e em vários casos, julgando se superiores, com mais conhecimento do que o próprio líder local e esquecendo-se de um grande princípio bíblico, que trata exatamente da submissão, respeito e sujeição à hierarquia ministerial.

Que opções devemos escolher? Para que tenhamos êxito na gloriosa tarefa de ganhar almas para o Reino de Deus, é preciso que escola teológica e igreja vivam e trabalhem em parceria com base na unidade de Cristo. Algumas práticas podem ser colocadas em ação para que essa relação seja saudável, amorosa e frutífera.

1. Ambas precisam se perceber como parceiras do Reino. Competição sempre foi e sempre será um desastre para igrejas, pastores e líderes. É necessário haver uma aproximação intencional de ambas as partes. Por parte da igreja pode se incentivar a orar pelas escolas, levar seus membros a conhecê-la, adotar seminaristas, convidar professores para dar palestras na igreja, para pregar, para testemunhar.

As escolas devem abrir espaço para ouvir os pastores, suas necessidades, suas preocupações, ter também programas para eles e incentivar a formação continuada deles. Sem essas parcerias ambas irão padecer.

A igreja não tem todos os dons, talentos e ferramentas para preparar um teólogo, embora, equivocadamente, algumas assim pensam o contrário. Por outro lado, escolas teológicas não podem preparar pastores sem diálogo e conhecimento das igrejas e suas necessidades. Ela prepara e capacita teólogos.

2. Os professores precisam estar envolvidos nas igrejas locais. O mundo acadêmico teológico não pode acontecer isolado da igreja.

Como esses professores que preparam os futuros teólogos podem capacitá-los sem ter a vivência do dia-a-dia da igreja? Essa é sem dúvida uma das principais lacunas.

3. As escolas teológicas denominacionais podem desenvolver um quadro docente profundamente comprometido com a igreja local. Isso pode ser estabelecido desde o processo de contratação do mesmo. Sem essa condição, não vejo lugar para esse docente na escola. Alguns podem argumentar: “mas existem certas disciplinas que não exigem isso”. Quais? Grego? Hebraico? Introdução à Sociologia? Não se trata de disciplinas optativas, mas de um processo pedagógico que é construído de forma integradora. Tudo na escola de Teologia é construído a partir do perfil do estudante. Ou seja, o perfil que se deseja formar nesse futuro teólogo. O teólogo sem a igreja é um perigo, porque seu compromisso não inclui a mesma. Teologia se faz com a igreja. Não se faz para ela, se faz para a missão de Deus. A igreja não é fim da missão, ao contrário, ela é o começo.

4. É importante que a educação teológica contemple a visão missiológica, incentivando os alunos a participarem de projetos missionários, de plantação de igrejas e de projetos evangelísticos. Uma escola descompromissada com a missão de Deus cai em descrédito. Qual a razão de uma escola teológica existir?

Em minha opinião, é parte da missão de Deus aqui na terra. Se Deus não tivesse uma missão no mundo, não seria necessário ter escolas de Teologia. Mas, como Ele tem, então a razão de existir deve ser a de preparar homens e mulheres para cumprirem e serem agentes da missão de Deus ao mundo. Isso também deve colocar a igreja no seu devido lugar.

A igreja não é razão da escola de Teologia. Ela é o instrumento usado por Deus, para sua missão terrenal. A igreja que barra, através de seus pastores e líderes, vocações pastorais não está contra a escola de Teologia, está, sim, contra a própria missão de Deus e terá que prestar contas a Ele.

Assim, a educação teológica deve imergir o estudante em um processo integral de formação e prática, com a esperança de que, ao final do seu treinamento teológico, ele esteja suficientemente preparado para ajudar a igreja a realizar a sua tarefa principal: anunciar as boas-novas de salvação.

A formação teológica é um processo para a vida toda, pois ela continua mesmo depois que o estudante completa seus estudos em uma instituição educacional teológica.

Conclusão

A igreja espera das escolas teológicas um auxílio na formação de seus membros, capacitando-os para que não somente saibam manusear as Escrituras, mas ao expô-la, façam de maneira correta, coerente e, acima de tudo, de forma que em todo o tempo o nome do Senhor seja glorificado.

Sabemos que a formação teológica em si mesma, caso não seja disseminada, torna-se apenas uma informação a mais, porém, quando compartilhada sob a inspiração do Espírito Santo e de maneira adequada, tem um grande poder na transformação de vidas e no desenvolvimento espiritual.

A palavra de ordem não é competição, mas cooperação. Cooperação porque igreja e educação teológica devem complementar-se. A escola teológica dá a formação e capacitação teológica genuína e a igreja complementa com a formação ministerial adequada, de acordo com seus costumes e dogmas.

FACEBOOK